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A cela de Marcela – Crônica de Mariléia Sell

25 de março, 2019 às 17:38 - por Mariléia Sell

Com a prisão do ex-presidente Michel Temer, o brasileiro foi à desforra com memes bem-humorados e criativos sobre um dos chefes de estado mais impopulares do país. O escracho e o riso funcionam, nessa lógica, como a inversão redentora de um mundo opressor e vertical. De um mundo que nega educação, saúde e segurança para o povo, enquanto os políticos se fartam em orgias nababescas. Assim como nas representações culturais da idade média, nas praças públicas, em que reis eram representados no inferno remendando meias enquanto o povo ria convulsivamente, o presidente corrupto e golpista agora é representado como um vampiro pendurado de cabeça pra baixo em celas escuras. E o povo continua rindo. A lógica dos memes é a do rebaixamento de tudo o que já foi elevado e nobre. O alto é trazido para baixo, para a terra, é ressignificado e exposto à vis do povo através da paródia, do espancamento de bonecos, da pantomima, dos grandes julgamentos, em uma espécie de reparação simbólica dos insultos da má política. É o riso, coisa seríssima, que garante a sanidade dos que são obrigados a conviver com o temor e o terror no dia-a-dia.

Contudo, o que chama atenção neste episódio é a presença de Marcela Temer nas representações veiculadas nas redes sociais, nessa grande praça virtual dos tempos modernos. Não para dizer que ela era cúmplice do malfeitor, talvez até fosse, mas não sabemos. Nem para acusá-la de qualquer ato ilícito, o que justificaria, assim, pela lógica descrita acima, a compensação moral através do desagravo, do deboche. Não, a contravenção de Marcela é ser mulher. Neste caso, é jovem e bonita. Mas poderia também ser velha e feia, continuaria sendo motivo de piadas por ser mulher. Quem não lembra das ofensas de cunho sexual contra a presidenta Dilma? Poderia ser gorda ou magra. Branca ou negra. Pobre ou rica. Continuaria tendo a sua sexualidade e o seu desejo expostos e ridicularizados. Continuaria sendo avaliada pela sua plasticidade e não pela sua capacidade intelectual. Continuaria sendo avaliada pelo seu estado civil (é comum as solteiras serem associadas à incompetência quando não arranjam ou quando não seguram um marido). Isso quando não são referendadas pelo termo senhorita, um verbete caduco que anuncia que a mulher está disponível no mercado do casamento.

A cela de Michel Temer é o endereço merecido de todos aqueles que conspiram contra o povo, embora devêssemos discutir de forma mais séria o momento da prisão e a conveniência política do episódio. Já a cela de Marcela, essa deve ser problematizada. É a diminuta prisão das convenções sociais que continuam dizendo à mulher como ela deve se comportar, como deve regrar sua vida sexual, como deve ser a sua aparência (apesar de nunca ser adequada). A cela do gênero é o espaço diminuto destinado às mulheres, a todas as mulheres, inclusive às primeiras-damas.

Mariléia Sell, é Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo e Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

Autora

Mariléia Sell

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