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Descanse em paz – Conto de Mariléia Sell

25 de novembro, 2019 às 12:57 - por Mariléia Sell

 Morreu, disseram. Quem disse? Perguntou um dos irmãos, ao mesmo tempo em que checava o relógio, ávido, impaciente. A voz do outro lado da linha, a voz especialista em notícias fatais, voz sem rosto, sei lá quem é!

De imediato, sob o escrutínio de interrogatório dos parentes próximos, e somente se não houvesse outra solução, confessaria o alívio que ouvir sobre a morte da mãe lhe trouxera. Porém, usaria de razões nobres para confessar. “Estava sofrendo muito, diria, já era hora, Deus a libertou do sofrimento, completaria entre suspiros, de olhos baixos, enquanto ao redor todos concordariam, acenando cabeças com gravidade.  Nas ocasiões de emergência, era sempre a primeira para quem ligavam. Então, a chuva de perguntas, o interesse fingido, moldado às pressas. E as respostas breves, automatizadas em anos e anos de cuidado, as quais eram aceitas sem maiores questionamentos: quanto mais detalhes se buscasse ao longo das conversas  a respeito da saúde periclitante da velha, maior perigo do assunto acabar em um pedido de se partirem igualmente as obrigações de cuidado entre todos os filhos.

 Ela acabara de morrer, a mãe. Foram incontáveis noites de vigília e muitas secretas revoltas. Revoltas igualmente inomináveis, porque condenáveis, ela sabia. Porque filhas têm deveres com as mães, isso é inquestionável. A mãe morrera, finalmente. A expressão dura da morte não fazia diferença em seu rosto; preservava a mesma rigidez intocada de estátua de gesso que tinha em vida. O corpo magro era a própria materialização da avareza, a representação da economia da vida em carne e osso, muito mais osso do que carne.

O funeral teria de ser organizado. Seria cremada, sim seria cremada, uma resolução tomada de repente, de última hora, sem nenhum planejamento. Mas  o plano funerário incluía também essa possibilidade. E ela, que jamais conhecera ninguém que tivesse o corpo queimado depois de morrer, sem mais nem menos, fizera uma pergunta que nem mesmo ousara formular em pensamento, antes de pronunciá-la em voz alta: Vocês também organizam cerimônia crematória? Ao que a telefonista respondeu: Sim. A mulher, então, finalmente livre de declarar-se filha de qualquer pessoa, órfã de pai e mãe, recostou-se na cadeira com certa indiferença, algo tão raro e incomum, que sequer sabia como acomodar tamanha novidade dentro de si. Porém, celebrava seu breve segundo de esperteza.

Já passava do meio dia quando reuniu a família e contou que não haveria enterro. Somente velório, sem o enterro correspondente. Depois do velório, botariam fogo no corpo?! Espanto generalizado. E depois cinzas. Ao pó tornarás, como diz na bíblia, muito mais cristão, se bem pensassem. Pensaram. Pensaram. Logo em seguida, se acostumaram. Todos de acordo, bem melhor desse jeito, sem cemitério, coisa mais ultrapassada. Não! não se usa disso hoje em dia. Realmente, bem melhor assim, sem cortejo, sem cemitério, sem o perigo de tomar chuva o caminho inteiro. Tudo resolvido, sob as chamas furiosas, a cinza da origem primitiva. Ao pó tornarás, bem mais cristão, sem sombra de dúvida.

Seguiriam à risca os protocolos da funerária. As vantagens destes rituais modernos é que tudo seria de um pragmatismo cirúrgico. Seria o triunfo do método sobre o caos da morte. Era a prova de que a morte, afinal, pode ser limpa, higiênica.

Perfilados em bancos de mogno, os familiares, com ares graves, exigidos pelas circunstâncias, acompanhavam a voz afetada do cerimonialista. O cenário impecável e a trilha sonora colocava-os a todos em uma espécie de filme. Inexplicavelmente, a morte, como experiência estética, os tocava e os colocava como atores principais de um drama. Em suas memórias, cavocavam lembranças da morta, mas encontravam dificuldades. Havia lembranças, claro, mas nada que combinasse com a quase santidade da  ocasião. Se havia algo que não combinava com a morta era santidade, daí a dificuldade de colocá-la no cenário. A filha guardava muitos ressentimentos da mãe: nunca recebera uma única aprovação na vida. A nora só conseguia lembrar do dia em que comunicara a sua primeira gravidez. “Mais uma criança neste mundo infeliz”, sentenciou, nada tocada pelo estado de graça da outra. Os netos só lembravam da vó dando tapas em suas mãos ansiosas por doces.  Nenhum deles a visitara mais depois de passada aquela fase em que as crianças são obrigadas a acompanhar as agendas dos pais.

O que ninguém estava lembrando era que havia um momento na cerimônia em que algum familiar era chamado para fazer uma homenagem à morta. Aquele momento em que as glórias da vida são retomadas em um discurso que justifica a passagem por esta terra. Entretanto, ninguém registrara essa informação da funerária  e não havia  ninguém que quisesse arriscar um improviso de última hora. Essas coisas demandavam toda uma preparação; cada palavra precisaria ser meticulosamente estudada, se fosse o caso.  Mas, a profissionalização dos serviços é que garante a sobrevivência no mercado; a funerária, tradicional na cidade, sabia. Havia um discurso preparado. Ninguém merecia morrer sem umas palavras, afinal.  Seria indigno.

Seguindo a ordem imperturbável da programação, enquanto pétalas de rosa caíam sobre o caixão e Chopin aguçava as emoções, o moço do microfone, em um tom de voz absolutamente ajustado ao momento, fazia justiça à morta. “Mãe amorosa e incansável; vó que não conhecia limites para agradar os netos, sogra acolhedora, amiga que sempre tinha uma palavra de consolo…”. Instintivamente, a nora lembrou de olhar a placa da entrada da capela para ver se não haviam se engando de funeral, afinal isso podia acontecer, já ouvira histórias assim. O rosto retesado da filha dava mostras de que não conseguia  acomodar essa mãe ‘amorosa e incansável’ à sua experiência. Não havia amigas presentes na cerimônia para atestar o discurso.

Os netos calculavam que a funerária, afinal, precisava rever suas estratégias se quisesse mesmo permanecer na liderança no mercado. Até eles, ainda não formados em marketing, sabiam que os produtos precisavam, minimamente, se ajustar às demandas do cliente. Mais tarde, enviariam uma mensagem indignada; quem sabe até levariam o case para a  faculdade. Enquanto todos divagam, a espessa cortina vai descendo. O alívio é geral.

Mariléia Sell é Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo e Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

 

Autora

Mariléia Sell

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