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Dia da Consciência Negra: A Importância de se ter uma consciência sobre a negritude – Artigo de Vanessa Saraiva

20 de novembro, 2019 às 14:28 - por Vanessa Saraiva

No Brasil, se inaugurou o mito da democracia racial. Ou seja: nosso país escapou da discriminação nem preconceito racial, não existem ofensas racistas e todas as relações raciais e sociais são descritas por quem advoga esse mito como equiparadas. Eles utilizam como parâmetro os Estados Unidos da América, que até os anos 1960 tinham uma política de segregação racial forte e que tem repercussões ainda hoje por lá. Daí surge outra ideia, a de que, aqui, há um racismo à brasileira, velado, que não provoca uma segregação entre brancos e não brancos. Basicamente, os brasileiros não são prejudicados ou não promovem discriminação racial.

Primeiro, é preciso dizer que essa é uma visão acadêmica da elite, que tirava conclusões comparando as políticas de segregação e realidade estadunidenses e brasileiras.

De fato, no Brasil e em países da América Latina existiu uma política ou ideal de “embranquecimento” da população, como um projeto nacional implementado por meio da miscigenação seletiva e políticas de povoamento e imigração europeia. A ideia era clarear os negros, presumindo uma superioridade branca. Também houve uma espécie de harmonização entre as elites políticas e intelectuais de origem europeia que supostamente traziam uma harmonia e tolerância racial e a ausência de preconceito e discriminação racial em seus países.

Esse foi um projeto do colonialismo europeu, advindo da modernidade, trazendo uma supremacia branca e europeia que colocava todo povo não branco como selvagem, primitivo, não humano ou não humano o suficiente para compartilhar dos mesmos direitos e privilégios brancos. Não é preciso dizer que esse processo de colonização não foi pacífico e nem harmonioso; pelo contrário: foi violento, genocida e exterminou culturas inteiras. Aliás, destaca-se que a origem do termo “raça” surge daí, foi a modernidade que cunhou o termo e o conceito, disseminando, com a empreitada colonialista por todo mundo colonizado, a ideia de superioridade da sua própria raça, a branca e europeia, no poder hegemônico da época.

O projeto racial se mantém na prática, na chamada colonialidade do poder, ou colonialismo tardio, que apesar do discurso aparentemente descolado da origem racista, conserva a ideia de supremacia branca, o que podemos chamar de “branquitude”.

A branquitude se manifesta de diversas maneiras.

 Na cultura, é a novela com elenco majoritariamente branco e negros exercendo papéis determinados pela cor, geralmente o papel social do negro no contexto, como escravo, serviçal, ou em um relacionamento inter-racial desaprovado socialmente. Também acontece com o escancarado embranquecimento em fotos de autores negros, como Machado de Assis, esvaziando o caráter racial no conjunto de suas obras. São alguns exemplos.

Na economia, vemos a branquitude se manifestar da formação acadêmica ao privilégio branco nas entrevistas de emprego, desde o mercado de trabalho até o prestígio das profissões. É algo visível: quanto mais os negros penetram em profissões elitizadas, menos prestígio social essas profissões têm no imaginário popular.

Na sociedade, é ver o negro em alguma posição de destaque e contestar, como jogar uma banana no campo de futebol, centralizar uma artista negra no seu corpo, estabelecer nichos onde negros podem sobressair. Também, muito comum na sociedade, é ver um negro no poder e sempre questionar o que ele fala, ou o que fez para chegar até esse local os brancos não se esforçam muito para alcançar.

A branquitude é o poder hegemônico em uma sociedade de maioria não branca. É por isso que há uma fundamental de democratizar de fato o Brasil, de torna-lo consciente de todos os povos que estão aqui, seja pela origem, pela colonização, pela vinda forçada, pela imigração e pela miscigenação. O projeto idealista da branquitude falhou, nossa sociedade permanece racialmente plural, e o negro busca cada vez mais espaço, igualdade, voz e ouvidos para escutar as realidades e particularidades.

É preciso, sim, de uma data para marcar essa conscientização! Precisamos demarcar nossa História, nossa realidade e nossa vivência nessa sociedade branca!

Vanessa Saraiva tem Graduação em serviço social e secretária de politicas para mulheres da Prefeitura de São Leopoldo

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