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Entre cochichos e jantares

27 de janeiro, 2017 às 09:47

Ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes – Crédito: Reprodução/Internet

No domingo que se seguiu ao enterro de Teori Zawaski, reuniram-se no Palácio Jaburu, em cujo pátio foram flagrados, à sombra de árvores, por repórteres da Globo, Michel Temer, Gilmar Mendes e Moreira Franco, secretário de Parcerias e Investimentos. O encontro se prolongou pela tarde e findou à noite com um jantar.

Os cochichos entre os três, com certeza, não eram para contar piadas de papagaio ou anedotas de sacanagem. De certo também não versavam sobre as excelsas virtudes do finado e tampouco sobre os milhões de desempregados do país. A toga que ficou sobrando no Supremo Tribunal Federal, com a partida sem adeus de Teori Zavaski, deve ter sido o móbil da conversa.

Gilmar Mendes não estava lá, representando o STF. As confabulações com Temer e Moreira Franco não dizem respeito a assuntos próprios de seu ofício. Afinal, seu ofício é um só: julgar. Mas, para julgar, ele não precisa consultar o Presidente da República, nem qualquer ministro que componha o time do Executivo.

Só os ingênuos não atinarão com essa indisfarçável inquietude de Gilmar Mendes. Na certa ele já tem o número do candidato que irá vestir a toga, sob medida, no STF. Ou, se assim não for, ele deve estar se sentindo com a força de um cupido, para flechar alguém que tenha as preferências de Temer, na composição daquela Corte.

Embora esse jeito de ser e de agir não seja próprio de um ministro do Supremo, de quem se espera um pudor de noiva, além de circunspecção, equilíbrio, sensatez e sabedoria, a desenvoltura de Gilmar Mendes, num palco destinado à política, poderia passar em branco, longe dos olhos da imprensa e da cupidez das redes sociais, não fossem os efeitos colaterais.

Acontece que o cargo de Michel Temer está a depender de julgamento no Superior Tribunal Eleitoral, que é presidido pelo mencionado Gilmar. Além disso, prenunciam oráculos dignos de fé que estilhaços da Lava Jato, poderão cair no colo do marido da Marcela, quando as delações desovadas pelos executivos da Odebrecht provocarem o deus nos acuda do juízo final.

O cenário em que a larva da imoralidade vai decompondo a crença na política não é o melhor lugar para cochichos e jantares de egrégios juízes e virtuais réus, ou partes visceralmente comprometidas com alguma causa em juízo. Por melhores que sejam as intenções de qualquer juiz, do primeiro ao último grau, ele não pode se considerar maior do que a toga, que lhe dá apenas o poder de julgar.

Autor

João Eichbaum

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