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Esses machos histéricos – Crônica de Mariléia Sell

27 de setembro, 2019 às 13:19 - por Mariléia Sell

Uma série de pronunciamentos de pessoas públicas tem tornado difícil controlar a depressão em pleno mês amarelo. No último domingo (22), Sílvio Santos lançou a segunda edição do Concurso Miss Infantil, expondo para escrutínio da plateia os corpos de meninas de até 10 anos.  O auditório recebeu a missão, juntamente com três juradas mulheres, de ver quem tinha “as pernas mais bonitas, o colo mais bonito, o rosto mais bonito e o conjunto mais bonito”.  Isso tudo em um contexto em que a erotização precoce e a pedofilização da sociedade vem sendo problematizada em função do crescente número de casos de violência sexual. A cada quatro horas uma menina com menos de 13 anos é estuprada no Brasil. Ou seja, em uma sociedade machista como a brasileira, as meninas são vistas como um objeto para o prazer masculino. Os caducos concursos de beleza só reforçam tudo aquilo que as feministas (e as pessoas sensatas) refutariam: a valorização da menina e da mulher pela sua aparência e não por outros atributos, como o seu intelecto, por exemplo. Historicamente, essa supervalorização plástica tem nos escravizado e nos reduzido, nos objetificado e nos violentado.

Também por esses dias, Edir Macedo, o mais famoso e rico vendilhão do templo de Deus, disse, em culto para legiões de fiéis, que as mulheres só devem estudar até o ensino médio, para não se tornarem “cabeças” do relacionamento. Em sua retórica, ele afirma que se a mulher fosse a cabeça, “não serviria a vontade de Deus, mas a sua própria”. E servir a si mesma é um pecado capital pelo qual respondemos desde o atrevimento inaugural de Eva. Macedo profetiza que o paraíso é dado àquelas que se sujeitam aos maridos, caso contrário, elas estarão condenadas ao fracasso e à infelicidade. Tudo o que uma mulher precisa é de um macho, porque, no raciocínio do pastor, mulheres inteligentíssimas não sabem encontrar um cabeça.

Nessa mesma linha, do mais puro refinamento intelectual masculino, o jornalista Gustavo Negreiros, de uma rádio do RN, atacou a ativista adolescente Greta Thunbergcom comentários degradantes.  A jovem sueca de apenas 16 anos tem ganhado a atenção do mundo e tem discursado em importantes fóruns, como é o caso da Convenção do Clima da ONU, no último dia 23, sobre a destruição do planeta. Sua cruzada, que começou com um protesto solitário, agregou vozes de milhões de pessoas. Suas falas emocionadas fazem eco em todos aqueles que se preocupam com o futuro da humanidade. Para Gustavo, porém, Greta não passa de uma histérica que precisa de sexo e, naturalmente, de um homem.

Não é de espantar que as três figuras sejam apoiadoras de Jair Bolsonaro, que defende uma extensíssima agenda misógina em sua ‘plataforma’ de governo. Para ele e sua equipe, além de 12% de fiéis seguidores, falar de gênero é desvirtuar crianças e destruir famílias.  Ora, falar de gênero é questionar concursos de beleza infantis e reconhecer nessas práticas uma forma de violência. É questionar crenças que dizem que a mulher nasceu para agradar e servir ao marido e não para pensar. Falar de gênero é desmantelar discursos que atribuem a voz ativista das mulheres à histeria e à falta de sexo. Não fica difícil de compreender que a ‘ideologia de gênero’ (que não existe conceitualmente e que não é reconhecida pela ciência) serve a uma agenda de poder, de dominação e de exploração. Manter as mulheres apequenadas em seus espaços domésticos, cuidando dos maridos, preocupadas com seus colos, pernas e rosto e sempre duvidando de sua sanidade, é uma forma de mantê-las ocupadas demais para assumir o poder. Aos machos que têm medo de mulheres que estudam, mulheres que assumem canetas e microfones e que discursam para multidões, vai um aviso: não andamos muito interessadas em vocês. Se Greta quer sexo ou não, se quer um homem, ou não, isso é da conta dela, não é assunto público; por ora ela quer mudar o mundo.

Mariléia Sell é Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo e Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

Autora

Mariléia Sell

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