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A farsa – Crônica de Mariléia Sell

29 de abril, 2020 às 12:32 - por Mariléia Sell

Criação: Daniel Cunha

Não era que a sensação houvesse lhe tomado o corpo de uma hora para outra, que o ato de despertar num sobressalto fizesse diferença pela simples casualidade de abrir os olhos de manhã. Algo, porém, crescia em seus modos, um anseio perigoso agitava sua contemplação noturna. Até que chegava num ponto de não suportar a palavra quase concreta, quando, de repente, o molde se despedaçava, tão próximo de um som que se fizesse compreensível. E finalmente dormia. E de novo o sol que lhe ardia no cocuruto. Em um raro instante de iniciativa, a revelação veio parar bem diante de sua marcha cambaleante, olhos cintilantes de perplexidade; uma outra vaca, no caminho até a ordenha, lhe fizera um aceno dissimulado. Mas ela sabia, não estava sozinha. E tantas horas ainda pela frente até que pudesse enfim voltar ao curral e ter outra vez as motivações de sua cúmplice, apenas adivinhada, era bem verdade, ao alcance de suas vistas inquietas. Tropeçava nas próprias pernas, cada passo seguinte mais penoso do que o anterior, a distância até o verde infinito do pasto jamais havia sido tão longa. Hoje sequer fazia questão de comer, temia que seu apetite lhe atordoasse as clarividências, todas tão recentes e a tamanho custo acomodadas entre os chifres. Acordada, enfim! E assim ficaria. Até de noite, pelo menos, até que houvesse possibilidade de compartilhar o que ruminava solitária, ao cair das estrelas. E se o que a outra soubesse servisse de complemento ao que ela mesma sabia? E se não fosse uma só? Se existissem outras? Muitas outras?

Tudo desaparecia ao ter a abundância da refeição aos seus pés, a vastidão do campo a hipnotizava. Não comer para resistir, não ceder a tentação do alimento, raciocinava aflita, valendo-se de tudo que carregava entre a cauda e o alto de sua cabeça bovina. Em seguida, o peso da saciedade a fazia desabar. Em crescente letargia, observa, com o canto do olho, o andar lento da cúmplice se aproximando. Ruminariam juntas. Seria a hora perfeita para decifrar as promessas daquele olhar enigmático no curral, a caminho da ordenha. A marcha da outra em sua direção não era, com certeza, obra do acaso, pressentia em suas entranhas tão abarrotadas de capim. Com o mesmo olhar de malícia, a outra abre precedentes calculados. Sim, porque os iguais se reconhecem e formam multidão. A suspeita se confirma: havia outras iguais a elas. Havia muitas outras espalhadas por todas as fazendas, sítios e matadouros. Todas estavam tendo ideias e uma nova ordem estava em curso, avisa a outra vaca, uma ordem que poria abaixo a atual. Subitamente, é tomada de um ardor inexplicável, uma espécie de febre arrebatadora. Como não havia enxergado antes os sinais que sempre estiveram debaixo do nariz? Mas é assim com as grandes revelações, elas se apresentam  de uma única vez, rasgam todos os véus num golpe certeiro. Estava desperta agora, enxergava com clareza os sinais. E a verdade recém assimilada seria o novo signo a guiar a sua vida, uma missão que assumiria  para si e que tornaria pública. Sim, ela iria a público e, se preciso fosse, tomaria a frente, organizaria a revolta. Falaria com todas as colegas, especialmente as ainda adormecidas, formaria comitês, marcaria caminhadas. Finalmente, havia compreendido o chamado. Com astúcias recém inauguradas, compreendia agora a mensagem que o touro pregador estava tentando passar ultimamente: viria um messias. Ela agora juntava as pontas, tudo estava conectado. Sim, um messias viria restaurar a ordem perdida. As vacas seriam as primeiras a compreender a mensagem, teriam capítulos especiais em seu reconhecimento nos livros de história.

Quando o anúncio da nova alvorada chega a todos os recantos, vacas e bois se uniam na missão de eleger um líder que os guiasse pelas pastagens verdejantes crivadas de flores amarelas. Um líder que fosse de intocada conduta e de ilibada coragem, um representante legítimo do Eldorado. E agora que todos haviam se encontrado, reconheceriam esse líder, era uma questão de sinergia.

O líder, sim, o líder, era um conceito de idealização árdua. Entre vacas recém-despertas, materializar a liderança era um exercício de devoção, de elevar um símbolo. No meio de tamanha euforia, um boi misterioso observava na sombra. Jamais se adivinharia o seu tamanho, ou as suas intenções. Vivia muito distante dos seus pares, habitava um cercado longínquo, ao lado do pavilhão de ordenhas. O gado não saberia muito bem determinar a utilidade daquele cercado, a não ser a necessidade de abrigo aos incapacitados, aos que não puxavam mais o arado. Nem ele mesmo saberia as razões de ter sido apartado do rebanho, o tempo era vasto atrás de sua cancela. E por que tinha tanto tempo, ele ouvia. Ouvia os queixumes murmurantes das lactantes ao sentirem o click dos sugadores se aboletando às tetas. Ouvia os urros dos jovens terneiros, impacientes sob o peso das cangas. Ouvia sobre o destino obscuro de bois e vacas que repentinamente desapareciam e nunca mais voltavam. Para cada gemido, uma solução milagrosa em resposta, mesmo que tais soluções nunca servissem às angústias em questão. O que não lhe chegasse das sessões intermináveis de extração de leite, o que não alcançasse da onda trovejante do trote dos bois de arado em direção as roças, ele fabricava por si mesmo, assim haveria mais problemas para resolver e ainda melhores remédios para oferecer.

Meticuloso, até o ponto em que um exemplar em suas condições atuais, confinado ao terreiro nos inutilizados, poderia ser, avançou à próxima etapa de sua cruzada secreta. Espalhava rumores no curso vacilante das tardes em queda livre. No começo das reuniões, ao final das tarefas, grande parte do rebanho relutava em aceitar sua figura anedótica, um tanto quanto enrugada ao redor dos chifres, como a luz que os conduziria à aurora dos novos tempos. Mas aos poucos, todas as resistências caiam. Nascia, pois, o símbolo da redenção das vacas e dos bois. O messias de que tanto falava o touro pregador se materializava com uma clareza estarrecedora; momento raro na história.

Mas a  liderança é desses postos desconfortáveis que exigem provas diárias, muito diferente da vida tranquila no cercado ao lado do pavilhão de ordenha. Não bastassem os problemas corriqueiros dos currais, os burburinhos misteriosos que espalhavam uma sombra de fatalidade ao redor das alvoradas.

O primeiro corpo que surgira no pasto inspirava clamores. Mas poderia ter a mais banal das razões, um passo mal calculado, uma pedra no meio do caminho e a queda. Assim morrera Estrelinha, em outra época, muito distante, em que elas tinham nomes, embora não tivessem líder. Um acidente comum. Não de queda, mas igualmente comum era enganchar os chifres numa cerca. Então o segundo corpo e muitos outros em seguida. Nem cercas, nem pedras, enquanto múltiplos cadáveres se espalhavam pelos campos, sem qualquer explicação. Humanos vestidos em roupas de astronauta examinavam as vacas arreadas em silêncio, cresciam os suspiros de alarme. A tragédia recebia um nome. Epidemia. Sim, uma epidemia bovina surgida do outro lado do mundo, em um sítio de origem desconhecida. Autoridades sanitárias recomendavam isolamento total dos rebanhos, ouvia-se falar horrores sobre a volúpia do vírus. Isso passaria a ser um problema de estado, e dos grandes. Um problema de tamanho suficiente para colocar em risco a posição de um líder. Quem puxaria o arado? Como ficaria a produção do leite e da carne? Queriam saber os donos das fazendas, cada vez mais impacientes, calculando prejuízos alarmantes. Atordoado, o boi se vê na contingência de apresentar planos emergenciais para responder aos olhares questionadores do gado. Mas havia o dono do chicote que também lançava olhares. Inclementes. E se há uma linguagem universal que todo boi entende é a do chicote; é uma memória que fica gravada em todas as camadas do couro. Estava em uma daquelas encruzilhadas  difíceis. O gado que voltasse a trabalhar, decidiu com o raciocínio que alcançava, lembrando da benevolência dos fazendeiros que não fizeram objeções a sua eleição. Aos olhares de perplexidade e de questionamento, o boi até irritava-se: é claro que alguns morreriam; muitos, talvez, bois e vacas morrem todos os dias! Mas não podia ser responsabilizado por isso; afinal era uma pandemia. E tinha mais,  não era coveiro pra se ocupar com o número de cadáveres que se amontoavam por todos os cantos.

No campo da morte, largadas à própria sorte, milhares de vacas e de bois despertavam da hipnose. Era, agora, a  agonia de um novo despertar, um despertar tardio, constatavam com ultraje e sem ânimo para novas revoluções.

Mariléia Sell, é Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo e Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

 

 

 

Autora

Mariléia Sell

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