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GIGOLÔS DE GALINHEIRO – Crônica de João Eichbaum

24 de maio, 2019 às 13:57 - por João Eichbaum

As dissensões políticas, que se alastram pelo bulício das redes sociais, ignoram um ponto em que Lula e Bolsonaro já afinaram. Que o povo ignore ou esqueça, tudo bem. O povo é levado pelo impulso, pela paixão que cega, pelo fanatismo que bloqueia o raciocínio. Mas essa ignorância não se perdoa dos – assim chamados – analistas políticos, uma casta de profissionais especializados numa coisa que é chamada de ciência, mas não tem lógica, e não passa de um caldeirão de ganância, vaidades, egoísmo, traições, imoralidade e apetites desmesurados pelo poder. Também da imprensa agrilhoada a proveitos de que se sustenta com serviços prestados a poderosos, não se perdoa a omissão de um pensamento que foi comum aos dois personagens da política brasileira.

Sim: Lula e Bolsonaro já afinaram pelo mesmo diapasão, em seu conceito de política. Há mais de vinte anos, quando estreava nesse campo, eleito deputado federal, o então torneiro mecânico Lula Inácio Lula da Silva, saiu-se com essa, referindo-se ao Congresso nacional: são quinhentos picaretas. Semana passada foi a vez de Jair Messias Bolsonaro abrir a boca: o problema do país são os políticos.

Lula, astuto sindicalista, mais untuoso do que muçum para se deixar enrolar, sentiu-se mero garnisé, no meio de galos safados, mancomunados com raposas. Bolsonaro, com mais de vinte anos de exercício parlamentar, só agora veio a descobrir que o mal do Brasil são os políticos.

Para chegar à presidência da República, Lula teve que gramar mais de uma dezena de anos, aparando seu caminho e sendo repudiado pelas elites, como ele dizia. Só depois que a sociedade brasileira, como um todo, cansou de políticos profissionais, tipo José Sarney, Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso, abriu-se o espaço para Lula.

E aí, na liderança, ele botou a funcionar seu faro de matreiro sindicalista, chuleando e costurando alianças. Sua convivência com empresários, junto aos quais sentava na mesa de negociações para solucionar greves, lhe rendeu certa intimidade com as raposas. Os Odebrecht e outros, por conta dos quais foi parar na cadeia ou ainda está enrascado em processos, lhe mostraram o ninho onde galinhas chocam ovos de ouro. Desde então, deixou de haver “picaretas” no congresso e ele só teve aliados para se reeleger e dominar na política.

Como Lula, Bolsonaro também foi a opção dos contribuintes, cansados da exploração das raposas que devastam esse galinheiro chamado Brasil. Mas, oriundo daquela camada que a imprensa chama desdenhosamente de “baixo clero”, e com formação castrense, não tinha jogo de cintura para manobrar políticos. Agora que lhe entregaram o poleiro, se deu conta de que, para botar ordem no galinheiro, precisa primeiro dar um jeito nas raposas.

Lula, enquanto não ajeitou as raposas sem rejeitá-las, foi olhado com desconfiança. Bolsonaro recebe tratamento diferente: é apedrejado pela grande imprensa para que dê jeito logo. E essa parte da imprensa tem pressa porque, atreita a velhos costumes, não saberá o que fazer sem os gigolôs de galinheiro, aqueles galos safados que, mancomunados com raposas, impedem as galinhas de cacarejar, quando botam ovos de ouro.

 

Autor

João Eichbaum

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