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Mas afinal, o que é Política? – Artigo de Vanessa Saraiva

28 de setembro, 2019 às 17:12 - por Redação do www.visadovalesl.com.br

Aristóteles disse que “o homem é, naturalmente, um animal político”.

No entanto, é comum ver hoje diversos debates sobre política que são na verdade a negação da política. Existe um processo de despolitizar movimentos que são legitimamente políticos. Por isso é importante saber o que é política, para que não nos tornemos reféns da interpretação restritiva desse processo despolitizador.

Mas o que é a política?

A verdade é que TUDO é política. O despertador que te acorda de manhã para o trabalho é fruto da política. O tipo de condução que você usa para ir para o trabalho é desenvolvido através da política. Seu salário é política. O que aparece na televisão, noticiário ou novela, é política. Nossas relações interpessoais são política. Tudo relacionado a nossa vida prática tem relação com política, desde a macro-política até a micro-política.

Política é a arte de organizar-se em movimentos que buscam algo em comum, às vezes visando o bem comum, às vezes buscando interesses de poucos. É através da política que as nações são administradas, e pelos projetos políticos que nossas vidas são afetas, positiva ou negativamente.

Uma canetada pode afetar questões familiares, por exemplo. A deliberação de uma corte judicial pode dar liberdade a casais homo afetivos constituírem união civil, que geram efeitos na vida real. Da mesma forma, uma canetada pode acabar com a possibilidade de uma aposentadoria digna.

A tendência a esvaziar o sentido da política, dando à palavra uma carga pejorativa, ajuda a eleger políticos e projetos de governo que se vendem como apolíticos, ou a negação dessa política dita suja. Assim, candidatos que não faziam parte de partidos, eram empresários ou “gestores”, acabam surfando na onda da despolitização, fazendo parecer que o que fazem não é também política. E como há um projeto de negação da política, há uma promoção da ignorância política; quilo que é vendido como apolítico nada mais é do que um projeto para lucrar na obscuridade, por debaixo dos panos, pela falta de consciência.

É importante saber que política não se faz apenas na via estatal, nem por exclusivamente feita por partidos. A sociedade civil, organizada ou não, também faz política, mesmo fora das reivindicações formais. Exigir um direito do Estado ou se agremiar em associações de bairro para debater situações locais são formas de exercer a política.

Todo mundo também tem uma ideologia, mesmo que não saiba. Ter uma ideologia faz parte da nossa visão de mundo, da nossa compreensão da realidade, que pode ou não ser fruto de um pensamento externo à nossa interpretação da realidade. Pode ser que vejamos algo de uma maneira, mas nos é ensinado a interpretar essa coisa de outro jeito, baseado ou não em uma visão correta do que é analisado.

O fato de que toda pessoa é um ser político não significa, no entanto, que todas as suas ações são baseadas puramente em sua ideologia. Às vezes, a prática e o discurso podem ser antagônicos, hipócritas até. Muitas vezes, más intenções podem estar escondidas em propagandas políticas que são apresentadas sob pele de cordeiro. Para compreender isso, não basta saber o que é política, é preciso ter consciência também, que infelizmente é algo pouco estimulado na nossa conjuntura.

Uma parte negativa da negação da política é a falta de consciência de que fazer parte de uma minoria (conceito sociológico), por exemplo, te coloca em uma situação de vulnerabilidade social. A despolitização traz que todos somos susceptíveis a um homicídio, porém, essa falta de consciência política não explica que há diferenças entre a violência urbana e a violência específica contra minorias. No Brasil, um dos últimos países a abolir a escravidão colonial, um país que conserva ainda tradições ultrapassadas nas questões de gênero e sexualidade, ser minoria significa um perigo real de vida, a chance concreta de sofrer com um tipo específico de violência, o movido pelo ódio. E isso representa no país que mais mata LGBTs do mundo, na terceira maior população carcerária do mundo – majoritariamente de negros –, num país em que ser mulher é extremamente perigoso – sobretudo dentro do lar.

O nível de despolitização é tanta que a falta de controle social sobre violência está sendo sonegadas pelos governos federal e estadual, o que impede a construção de políticas públicas efetivas, e nada tem sido feito a respeito.

Precisamos afastar essa noção de que política é algo negativo. A participação política é fundamental para que alcancemos o bem comum e uma melhor qualidade de vida, para que progredirmos em direitos e não deixemos o retrocesso atingir nossas conquistas.

Vamos politizar!

Vanessa Saraiva tem Graduação em serviço social e secretária de politicas para mulheres da Prefeitura de São Leopoldo

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