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Meu menininho – Crônica de Mariléia Sell

25 de maio, 2019 às 13:49 - por Mariléia Sell

Dona Cacilda andava aborrecida com a escola. E não era pra menos; a diretora fizera pouco caso de uma queixa de bullying contra seu filho, o Caduzinho. Um menino grandão do sétimo ano, abobado das ideias e ignorando o fato de Caduzinho ser do quarto ano, batia nele todo santo dia no banheiro e ainda o chamava de bolo fofo, baleia e bolacha traquinas. Com tanta pressão, Caduzinho, que já era nervoso por natureza, começou a se empanturrar ainda mais e seu quadro caminhava a passos largos para uma obesidade mórbida. Andava também muito irritado, a ponto de jogar os pratos no chão quando a mãe falava em cortar frituras, refrigerantes e doces. Jogava objetos, batia portas e dava chutes quando mencionavam regrar o uso do computador. Os nervos de Caduzinho inspiravam cuidados, isso era inegável!

Como a diretora da escola não fez nada, Cacilda fez. Ninguém jamais poderia acusá-la de ser daquelas mães omissas, que deixam os filhos rolando no mundo, sem assistência. Se havia algo nessa vida para o que fora talhada era para a maternidade. Foi até a casa dos pais do menino grandão do sétimo ano para colocar os pingos nos is. O pai do menino grandão cagou o filho a pau e deu o assunto por encerrado. Nem quis ouvir a defesa do pobre, tinha mais o que fazer. Caduzinho achou a surra muito justa e nem lhe ocorreu mencionar para a mãe que apelidara o grandão de mongo, já que seu intelecto prejudicado o fizera estacionar no sétimo ano para sempre. Caduzinho também não lembrava ao certo quem havia começado o impasse, se ele ou o mongo.

As alegadas agressões de Caduzinho fizeram com que evitasse o banheiro. Por isso, fazia xixi no muro da escola, enquanto a mãe lhe dava guarida e depois limpava o seu pintinho com um lencinho. Como se poderia prever, as outras mães não ignoraram tamanha sem-vergonhice e formalizaram, em comitiva organizada, com relatora previamente eleita e tudo mais, porque se havia algo que as ofendia era serem taxadas de arruaceiras, queixas à diretora.  Com o levante traiçoeiro das outras mães, Cacilda, que já andava pelas tampas com toda essa situação, decidiu mudar de ares. Matriculou seu filho em uma escola particular. Podia pagar, afinal. Não tinha necessidade de aturar essa gentalha vileira e mal-educada. O que não pudera prever, entretanto, é que Caduzinho empacaria na frente da escola nova, a que custaria os olhos da cara de Cacilda. Não entrou nem com as ameaças do Conselho Tutelar. Foi um erro de cálculo, a mãe não levou em consideração os vínculos que Caduzinho tinha fora do núcleo familiar.

Caduzinho quedou doente e a mãe achou por bem deixá-lo em casa uns dias para se refazer desse estresse todo. O mundo inteiro concorda que crianças doentes ficam liberadas da escola. Quem, afinal, tem competência para contestar um atestado médico? Achou por bem também suspender a dieta. Agora que estaria desobrigado das comidas indigestas da escola, aproveitaria para fazer os pratos prediletos do convalescido. Afrouxaria também o controle sobre as horas livres do menino, afinal seria só por um tempo. Sabia que lazer era importante para uma completa recuperação. Não achava produtivo trazer mais perdas para a vida de Caduzinho. E para que pudesse cuidá-lo melhor, reorganizou a vida doméstica. Se há uma coisa que uma mãe sempre tem sob controle é a vida doméstica. Todos concordam que fica tão mais fácil para uma mãe controlar a temperatura de um filho quando a testa fica sempre ao alcance da mão. O marido seria transferido para a sala e Caduzinho dormiria na cama do casal.

Mariléia Sell, é Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo e Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

 

 

 

Autora

Mariléia Sell

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