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Natureza secreta – Crônica de Mariléia Sell

01 de junho, 2020 às 20:05 - por Mariléia Sell

Arte: Daniel Cunha

Irmã Nísia era dessas freiras inalcançáveis a todas as meninas aspirantes à vida religiosa. Absolutamente irrepreensível nas práticas do convento e, de longe, a irmã que mais rezava. Com disciplina militar, acordava antes de todo mundo e rezava. Antes que deixasse o dormitório, rezava. Antes de tocar no pão do café da manhã, rezava. Sempre a derradeira alma a estender o corpo sobre a cama, cama de penitência. Joelhos no chão primeiro, para levar ao leito somente a pureza que a reza entregava em troca do sacrifício. Todos os dias, com sol ou com chuva, andava 17 voltas inteiras ao redor do jardim interno com ares muito concentrados, debulhando o seu rosário de madeira, dizem que abençoado pelo papa em pessoa! Suas passadas miúdas, porém, apressadas, eram mais um testemunho da sua disposição ao sacrifício; cuidava muito para não cair na tentação dos confortos da vida religiosa. Não, nunca seria dessas; bem sabia que havia muitas formas capitais de pecar e sabia também que a queda era fruto da distração. Na penumbra dos intermináveis corredores do prédio, era flagrada perambulando nas horas mais improváveis do dia e da noite. Rezando, com certeza. Com uma vida tão aplicada aos princípios da Congregação, era impensável Irmã Nísia ter alguma dívida, algum pecado, por mínimo que fosse, um pecadilho, como se diz, que a desabonasse perante a grande balança divina. Pelo contrário, seu saldo seria sempre infinitamente positivo: era uma matemática bem elementar essa, fácil de compreender até para as iniciantes. A freira, com certeza, acumularia créditos para acertar as contas de muitos pecadores desta terra.

Era difícil atribuir-lhe uma idade, sequer aproximada, debaixo das várias camadas de panos sagrados. Somente uma pequena parte do rosto ficava à mostra, mas os olhos, ah, os olhos, estes não deixavam dúvidas: tratava-se de criatura milenar. Por que os olhos têm disso, eles revelam nuances da profundidade dos abismos habitados pela alma. Nenhuma das jovens aspirantes à consagração ousava mergulhar naqueles olhos; encarar de frente a santidade era tarefa que exigia doses extras de coragem. O corpo miúdo da freira era resultado de jejuns regulares e de muita parcimônia às mesas fartas das missionárias. Nísia não era dessas que sucumbiam aos prazeres. Ela sabia muito bem que o caminho da santidade não passava pelas opulentas travessas de caldas de abóbora e, menos ainda, pelas imponentes pipas de vinho bordô armazenadas em temperaturas acidentalmente ideais nos porões do convento. Olhava com piedade mal disfarçada para a Irmã Romilda que avançava furiosamente sobre os pratos e que ostentava vergonhosas formas arredondadas. A magreza era a prova material da penitência, da virtude e do autocontrole; qualidades tão desejadas por Deus para as mulheres. Já a gordura reluzente das bochechas de Romilda eram a coroação da concupiscência e da incapacidade de resistir às coisas deste mundo. Mas Nísia rezava por Romilda, pela sua fraqueza de espírito. Rezava também por Armelinda, a responsável pelas enormes pipas de vinho do porão, tão escondido e tão longe do alcance da vista. Os olhos marejados da colega entregavam que há muito fora dominada pelo êxtase dos sentidos. O corpo é sempre o vetor das corrupções da alma, Nísia sabia. Ela sabia de muitas coisas!

Nísia jamais cairia nessas tentações, tinha a mais absoluta clareza das coisas e sabia que o caminho da retidão era sempre o mais difícil, um caminho para poucas, o buraco da agulha para o camelo.  E ela não tinha mais idade para se distrair. Não se sabia ao certo há quanto tempo Nísia habitava o convento, mas ninguém ousava perguntar nada a ela. Sabia-se que a velha era tão sólida quanto as pedras seculares dos muros ao redor do santuário e pessoas assim, muito velhas e muito santas, causavam certo desconforto nas almas mais pueris. Era como ajoelhar-se perante o altar e encarar aquelas pinturas sacras, muito elevadas, e escorregar em pensamentos pecaminosos bem ali, diante de Deus. E bem ali, diante da sacralidade da igreja e do padre, nenhuma delas escapava da opressão da perfeição divina.

Todos os aspectos desconhecidos sobre Nísia eram preenchidos pela imaginação das internas. Era o assunto favorito nas conversas proibidas debaixo das escadas; conversas que, sabidamente, não acrescentavam em nada para a evolução espiritual das aspirantes. Por isso mesmo eram proibidas; as freiras tinham muita experiência em podar a natureza bisbilhoteira das meninas. O silêncio era uma das virtudes mais celebradas no convento; o silêncio das mulheres. O padre sempre se demorava nas qualidades de Maria, a mãe de todas, silenciosa, obediente e resignada. Acaso alguém já ouvira falar, e ele perguntava isso com o dedo apontando para o teto, com ares de enfado retórico, sobre alguma intriga envolvendo a mãe de Jesus? Não, ninguém ouvira, em lugar nenhum da Bíblia havia menção a qualquer ato de insubordinação. Seu currículo era irrepreensível em todos os aspectos. Nada a desabonava. Por isso, nessas pequenas insurgências debaixo das escadas, todas viravam as costas para a virgem, depois se arrependiam e confessavam os seus pecados ao padre. O arrependimento durava até a próxima reunião entre as vassouras debaixo da escada, reunião que também teria como pauta a Irmã Nísia e suas habilidades excepcionais. Além da já sabida santidade, ela ainda podia ler a mente das pessoas, corria à boca pequena, de fonte segura, seguríssima. Sim, isso mesmo. Ela olhava para a pessoa e lia tudo, tudinho mesmo, o que havia por dentro; conseguia saber das intenções de cada uma e dos pensamentos mais inconfessáveis que, todas sabiam, estavam sempre à espreita em alguma esquina pouco iluminada da mente. E não adiantava dissimular, ela conseguia furar qualquer bloqueio, viesse de onde viesse. A informação dos super poderes da freira causava verdadeira comoção entre elas, afinal, quem, honestamente falando, está preparado para encarar-se, assim, sem os filtros da autoindulgência?

Como se não bastasse o incômodo dos olhos, aos quais nenhum segredo, por mais bem guardado que fosse, escapava, ainda que a pobre criatura tocada por eles sequer soubesse que o tinha dentro de si, Irmã Nísia, era senhora de outras habilidades, tão assustadoras quanto as que a natureza lhe dera. Tinha diplomas que lhe asseguravam vantagens muito perigosas. Era psicóloga, segundo se dizia por toda parte.

Mariléia Sell é Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo e Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

 

 

 

 

Autora

Mariléia Sell

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