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A neguinha sem corpinho – Crônica de Mariléia Sell

21 de junho, 2019 às 09:35 - por Mariléia Sell

Pensamentos inconfessáveis, cuidadosamente ocultados nos porões da consciência, eventualmente vazam para além do território do mundo privado e chocam a opinião pública. Falas condenáveis que sobem à superfície de forma acidental alcançam visibilidade através de microfones abertos, câmeras indiscretas, telefones grampeados, escutas programadas ou mensagens hackeadas e são exatamente essas falas que revelam o que, de fato, as pessoas pensam, não aquilo que elas dizem pensar em seus discursos planejados e politicamente corretos. Sem vigilâncias externas e na companhia de pessoas que compartilham do mesmo sistema de crenças, instaura-se o conforto de estar entre iguais, o conforto de poder ser quem se é, sem ameaças, sem julgamentos. Na vida social, todos estão sempre atentos à possibilidade de serem julgados negativamente e esse prejuízo moral é evitado como a morte, especialmente na política, em que as pessoas dependem de sua imagem pública como do próprio oxigênio. Conflitos entre o discurso e a prática vão desidratando essa imagem tão cuidadosamente planejada e vão corroendo siglas que, na cartilha, defendem determinadas causas.

A Câmara Municipal de Vereadores de São Leopoldo foi palco de outro episódio lamentável, em que dois vereadores (do PDT e do PT) se referem pejorativamente a uma cidadã que entra na casa do povo para participar de uma sessão. No ano passado, o assessor de um vereador (do MDB) referiu-se a uma advogada da prefeitura como ‘só mais um rostinho bonito’, por isso manifestações misógenas não são novidade nesta casa, como não o são em lugar nenhum. Bem, mas as falas dos dois vereadores em questão não foram projetadas para a esfera pública, era uma conversa entre colegas que estavam na segurança do seu mundo particular, trocando concepções de mundo compartilhadas. Não contavam com a indiscrição de um microfone aberto, um microfone que nos desse acesso aos seus pensamentos mais escondidos. Por estarem neste ambiente seguro, de pura cumplicidade, observam uma mulher negra entrando no ambiente e logo se autorizam a fazer comentários. De todas as possíveis categorias de pertencimento social desta pessoa, um dos vereadores pinçou a categoria ‘neguinha’ para se referir à mulher, ou seja, ele alçou esta categoria à mais relevante na conversa com o interlocutor. E a categoria escolhida sempre nos fala mais sobre quem a menciona do que sobre quem é mencionado. Essa pessoa é uma mulher, é uma cidadã, poderia ser mãe, filha, avó, professora, vendedora, poderia ser qualquer coisa, mas ficou reduzida a sua raça. E no diminutivo. Sim, porque, assim como as crianças, as mulheres nunca são totalmente levadas à sério.

Em sua animada conversa privada, o mesmo vereador que se referiu à mulher como ‘neguinha’, sugere que o colega ‘ficou de olho nela’. Ficar de olho nas mulheres é uma prática tão naturalizada no mundo dos machos que nem chega a causar estranhamento. Por onde quer que andemos, nossos corpos são sempre aviltados por olhares lascivos, olhares violentos. O segundo vereador nega que tenha ficado de olho, embora já tenha uma opinião formada sobre a ‘neguinha’: ela ‘não tem corpinho’.  Em instantes, escaneou o corpo da mulher e a catalogou de acordo com os seus critérios particulares de plasticidade desejável: ela não serve, ‘tem que ter corpinho’. Não é novidade nenhuma que a mulher sempre é julgada pela sua aparência física. E que essa aparência nunca será boa o suficiente para os exigentes homens, não importando se esses mesmos homens tenham corpos nada atraentes, se aplicarmos esses mesmos critérios de avaliação que empregam para nos classificar. Nossos corpos serão sempre gordos demais, velhos demais, pretos demais. Nossas capacidades serão sempre insuficientes no implacável mundo dos homens, pois o máximo que podemos alcançar é um ‘rostinho bonito’. Também no diminutivo.

De prisão em prisão, depois de vencermos o confinamento doméstico, precisamos, agora, quebrar a jaula do mito da beleza, além de, é claro, superar, de uma vez para sempre, o racismo disfarçado de ‘brincaderinha’ em conversas mundanas e institucionais. Nossos corpos nos pertencem e não estão no mercado falocêntrico para deleite masculino. Também não precisamos da aprovação dos machos, embora algum respeito fosse desejável, porque nossos corpos são signos políticos, são territórios de afirmação e de resistência.

Mariléia Sell é Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo e Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

Autora

Mariléia Sell

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