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O Antipetismo e a realidade – Artigo de Vanessa Saraiva

13 de setembro, 2020 às 23:19 - por Vanessa Saraiva

Embora não se possa fazer uma análise acrítica aos governos do Partido dos Trabalhadores, em todas as esferas nas quais o partido governou, principalmente no executivo federal, a realidade contrasta diretamente com a imagem criada pelo antipetismo.

O antipetismo nasce antes do próprio petismo. Isso porque a propaganda anticomunista, principalmente a inflamada pelo nazifascismo na Segunda Guerra e depois ao longo da Guerra Fria, passou a adaptar algumas falsificações históricas e manipulações da verdade para se adequar ao fenômeno do sucesso dos governos de esquerda na América Latina, e do PT e do lulismo no Brasil. Era preciso acabar com essa imagem que vinha se consolidando ao longo dos anos desde 2002 com a eleição de Lula, então a direita se uniu ao que havia de pior e foi descendo cada vez mais os degraus da dignidade. Foi assim que o antipetismo elegeu não o projeto da direita limpinha neoliberal, mas o projeto protofascista de um deputado do baixo clero e com envolvimento com milícias do RJ.

Esse mês está sendo um ótimo dia para falar sobre antipetismo e a realidade. A construção dos discursos contra corrupção elegeu os maiores corruptos, aqueles que não só enganam o povo politicamente, mas também pela fé, pela crença, manipulando afetos para combater fantasmas. Só nesse mês, pastor Everaldo foi preso, Witzel foi afastado do governo do estado do RJ, e a história da deputada pastora Flordelis ganha tons cada dia mais pitorescos, com direito a incesto e tortura de menores, além da absolvição de petistas em denúncias de corrupção que há 15 anos mancham suas reputações.

Foi essa aura de combate à corrupção que elegeu esses corruptos, porque o discurso do combate a corrupção sempre esteve nas bocas dos fascistas desde sempre. Colocando o “outro” como inimigo e impondo a esse “outro” todas as mazelas de uma sociedade profundamente desigual, criando a pecha de corrupto para afastar de si essa imagem. Com a chegada das redes de ódio e fake News nas redes sociais – arma até então não utilizada antes e que por isso conseguiu o sucesso da eleição dessas figuras -, grande parte dos eleitores de 2018 votou acreditando que estaria salvando o país, sem saber que elegia figuras tão podres quanto o que eles diziam ser o “outro”.

– Lawfare e o nascimento do Bolsonarismo

Até poucos anos atrás, alguns projetos políticos não seriam sequer cogitados pela população brasileira. A partir da eleição de Lula, alcançamos patamares econômicos e sociais nunca antes atingidos; progredimos em muitas áreas, como a ciência, acesso à Saúde, Educação e Justiça, e avançamos na redução das desigualdades no Brasil, uma chaga histórica que manchava nosso país.

Após o esforço coordenado de várias forças burguesas, o projeto que se intitulava anticorrupção entrou como um Cavalo de Tróia na política nacional, infiltrando-se desde o Congresso Nacional, passando por movimentos ditos populares, até inflamar os afetos elitizados do Judiciário. Viu-se a instrumentalização da justiça na perseguição ao Partido dos Trabalhadores, tornado símbolo de tudo que havia de mais sujo na política nacional. A seguir, a perseguição atingiu nominalmente políticos desse partido e, em sentido amplo, um ataque a toda esquerda.

Dá-se a essa instrumentalização da justiça o nome de “lawfare”, que é uma forma de guerra na qual a lei é usada por manobras jurídico-legais para promover golpes à democracia, substituindo o emprego das forças armadas. Ou seja, sob o discurso de que “a lei é para todos”, recursos que manipularam o devido processo legal e afrontam o Estado Democrático de Direito, o Judiciário conduziu a maior perseguição a políticos jamais vista para atender aos interesses daqueles que patrocinavam o novo projeto de governo a ser imposto ao Brasil. De arrasto a isso, veio todo humanismo político construído e que estava aos poucos se tornando alicerce da nossa democracia e suas instituições.

Pelas revelações semanais da #VazaJato, do site The Intercept, percebemos o conluio entre o Ministério Público Federal e a Justiça Federal, na figura do ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro – sem esquecer que foi por sua causa que o ex-presidente Lula foi impedido de concorrer às eleições, e sua prisão fora providencialmente decretada logo após a condenação em segunda instância na justiça federal da 4ª Região. Em pagamento, Bolsonaro depositou um cheque na conta de Moro, dando-lhe plenos poderes de superministro e autonomia. Como o cheque não era do Queiróz, estava sem fundos, e Moro saiu com o rabo entre as pernas alegando surpresa ao denunciar o que já se sabia sobre esse governo.

A bem da verdade, a organização dessa empreitada não visava eleger um deputado com representação inexpressiva, sem projeto ou alianças com a burguesia, como o então ascendente Bolsonaro. O capitão reformado acabou surfando na onda anticorrupção e antipetista programada para eleger Alkmin ou algum tucano que o valha, a direita cheirosa e limpinha, tendo em vista que, desde a primeira derrota do PSDB, todas as correlações de força buscavam impedir candidaturas petistas no tapetão, de forma escusa à regra democrática. Bolsonaro foi alçado a cadeira de presidente provavelmente com a incredulidade da própria base de apoio.

– Antipetismo: mito ou realidade?

Embora tudo isso dito acima possa parecer debate ideológico, proponho uma reflexão a partir da nossa vida, para que possamos construir uma lógica política decorrente das proposições que irei expor.

O PT se tornou um partido enorme, poderoso, com representação nacional expressiva e com candidatos eleitos em todas as esferas.

Desde 2002, com a eleição de Lula ao cargo de presidente do Brasil, até o impeachment da Dilma em meados de 2016, como sua vida se desenvolveu? Seus familiares, amigos, conhecidos, vizinhos, como viveram esses 14 anos de governo petista no executivo federal? Para quantas formaturas foi convidado? Com que frequência viu a atualização da frota de veículos de gente próxima? Quantas reformas residenciais ou realização da casa própria presenciou? Quantas pessoas viajaram pelo Brasil ou ao exterior? Vá pensando nisso.

Contra a ascensão do PT, a oposição precisou se unir em torno de um mote: a luta contra a corrupção. Além disso, buscou-se aliar à direita a palavra da moda, “gestão”, ao passo que o PT seria “incompetente”. Ineficiente e corrupto, o caldo só precisaria ser engrossado com mais um ingrediente na ascensão neoliberal: o anticomunismo. E por anticomunismo leia-se qualquer coisa que se encaixe na paranoia macarthista neoconservadora que tomou conta da narrativa direitista.

Dessa forma, o PT foi aparentemente se desidratando no poder ao longo dos anos, sobretudo com o impeachment da Dilma. Por suposição, foi perdendo adeptos, correligionários, militantes, partidários, candidaturas fortes foram ficando escassas e seu fim estava decretado pela oposição. A realidade, óbvio, é um pouco diferente: o partido cresceu nesses números cada ano mais.

Independente disso, vários municípios aderiram ao antipetismo, assim como alguns estados que antes elegiam petistas, agora se dividiam entre candidatos fortes do PT e cavalos paraguaios do antipetismo. Foi o caso do Sartori no Rio Grande do Sul, em 2014.

Desconsiderando a pandemia, voltemos ao pensamento proposto neste tópico: há 6 anos o estado do RS não é governado pelo PT. Durante esses 6 anos, entre Sartori e Leite, no que tua vida mudou? Melhorou? Piorou? Nos últimos 6 anos, quantos ficaram desempregados no teu círculo de convívio? Quantos continuaram sonhando com aquela viagem, com o carro novo (que não será usado para trabalhar em aplicativo)?

Alguns municípios da região metropolitana e do Vale dos Sinos também aderiram ao antipetismo nas eleições, decidiram por candidaturas de outros partidos. Em Viamão, por exemplo, o prefeito tucano foi afastado por corrupção. Em São Leopoldo, onde a prefeitura é de gestão composta por vários partidos, mas encabeçada pelo PT, a oposição faz de vários setores seu campo de batalha, mesmo não conseguindo reproduzir em outras esferas o sucesso que eles pretendem realizar na prefeitura caso sejam eleitos.  Como está a Saúde, a Segurança Pública, a Educação, o desenvolvimento social, a redução de indicadores de violência nesses outros municípios sem o PT? Melhores que em São Leopoldo?

Uma das pautas que será trazida nessas eleições municipais de 2020 é a questão da Fundação Hospital Centenário, instituição municipal que sempre foi um campo fértil para disputa eleitoreira. Nas gestões passadas, o Centenário passou por uma precarização que visava sua privatização. Por 4 anos estiveram diversos atores políticos trabalhando na diminuição das conquistas obtidas pela gestão atual no seu hospital público, gente que quer privatizar todo o SUS e que, insatisfeitos com a gestão positiva, mesmo com a crise em razão da falta dos devidos repasses pelo governo estadual e a imposição do teto dos gastos públicos, acha que enganará a população com suas falsas promessas. É bom lembrar que o candidato bolsonarista capilé também vem instrumentalizando o Centenário em meio à pandemia, enquanto seu presidente nomeia um veterinário para atuar no genocídio, ou seja, acredita que ninguém está percebendo a condução da crise sanitária que já vitimou mais de 120 mil pessoas até agora.

A pergunta que fica é: quais promessas que o antipetismo cumpriu, nesses anos todos de campanha, para melhorar o que aparentemente estava sendo estragado pelo PT?

A instabilidade do país, em razão da crise econômica mundial e da crise política nacional, infestou todas as esferas do poder executivo. O antipetismo foi um ingrediente fundamental para que essa sopa de fracassos nas políticas públicas chegasse a nós todos. Sob o argumento do aumento do emprego, desde o impeachment nos empurram goela a baixo a precarização do trabalho, a terceirização irrestrita, a relativização dos direitos trabalhistas, a PEC do teto dos gastos públicos (que limita os investimentos em áreas estratégicas como Saúde e Educação), a péssima gestão da crise sanitária durante a pandemia.

O antipetismo tenta convencer que a realidade atual é uma construção de fracassos de gestões petistas. Contudo, suplico, tentem ver além do discurso desses que tomaram de assalto o poder. Analisem a realidade, o dia a dia, olhem para o lado, para o vizinho, o familiar, aqueles planos, projetos e sonhos que se acabaram ao passo que novos juramentos foram feitos e, até hoje, nenhum se cumpriu (pelo contrário, estão cada vez mais distantes).

Temos milhares de brasileiros mortos pela Covid-19, mortes que poderiam ser evitadas pelo reforço nas políticas públicas, pelo repasse correto da verba que está sendo retida pelo governo Bolsonaro, pelo fim do teto dos gastos, e sobretudo se a população não tivesse sido enganada pelo projeto antipetista de um suposto combate à corrupção que nunca teve efeito na realidade.

Sejamos críticos, sim. Mas não acríticos ao ponto de defender uma realidade inexistente como o espantalho do anticomunismo, o antipetismo e as mentiras contadas sobre a esquerda.

Vanessa Saraiva é Bacharel em Serviço social

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