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O Corpo – Crônica de Mariléia Sell

07 de junho, 2019 às 13:04 - por Mariléia Sell

Bartolomeu tinha a vida que qualquer boizinho pediria ao deus galhudo. Pinoteava sem grandes vigilâncias nas pastagens da dona Elvira e partilhava os dias com a sua mãe, uma vaca de ubres opulentos e inquestionável prestígio no sítio. Como toda mãe, vaca ou não, acompanhava o seu filhote à distância com seus grandes olhos complacentes. Enquanto se ocupava com as demandas da maternidade, mastigava capim fresco e espantava as moscas com o rabo. As moscas eram uma chateação na vida de qualquer vaca, mas acostumara-se a aceitar as coisas como a vida as mandava. Desde o paraíso perdido, a resignação era uma regra de economia muito valorizada entre os bovinos.

Às tardinhas, Bartolomeu recebia porções extras de milho em seu cocho. Os grãos dourados eram mastigados com total gozo enquanto Helena, a caçula de Elvira, fazia carinho em volta do pescoço do seu animal de estimação. Os pequenos chifrinhos despontavam do alto da cabeça em promessas de um futuro viril. Era um cálculo genético simples, seria um boi grande porque seus pais eram corpulentos. O pai era ausente, como o são os bois, mas, ainda assim, a paternidade era conhecida por todos. Na baia vizinha, a mãe de Bartolomeu aliviava os seus ubres inchados e lustrosos na ordenha, com renovada alegria em servir aos donos. Tarros cheios de leite garantiam paz e felicidade. Satisfeitos, mãe filho dormiam todas as noites sobre os alicerces do seu estábulo seguro, em um mundo sem ameaças. E assim os dias sucediam em pacata constância.

Bartolomeu crescia a olhos vistos e Helena o enchia de dengos. O boizinho lambia a mão da menina e dava suaves chifradas em suas pernas, convidando-a para brincar. Talvez fosse imaginação de criança, mas Helena podia jurar que via lágrimas nos olhos de Bartolomeu, de pura felicidade. A amizade dos dois era dessas coisas ainda intocadas pelo mundo.

Um dia, no café da manhã, Helena escuta os planos dos pais para a sua primeira comunhão. Fariam uma grande festa para os amigos e os familiares. Até o padre fora convidado e a confirmação de sua presença causava agitações extras à família. Afinal, não era todo dia que se tinha representantes divinos à mesa. Muito empenhada, a mãe já preparara dúzias de compotas de figo e de abóbora para o grande dia. Para a sobremesa, haveria também torta de morango com coco, um regalo que ninguém dispensaria. Já adiantara também os biscoitos que seriam servidos no chá da tarde. Para as saladas, alfaces, rúculas e repolhos verdejavam abundantes na horta. Dúzias e mais dúzias de ovos já estavam em conserva com beterrabas, o que colocou as galinhas no centro da inspeção de produtividade.

A carne do churrasco seria a mais tenra possível, anunciou o pai, do alto de sua experiência de assador. Se havia um assunto que rendia críticas implacáveis entre convidados de qualquer festa era uma carne dura, de bicho velho. Por isso mesmo, estivera cuidando do assunto há meses. Seria para receber o corpo de Cristo, afinal, o segundo sacramento da vida cristã, aquele que reforçaria a inscrição da sua filha na genealogia divina. Corpo por corpo. Haveria um sacrifício. Isso era inevitável porque uma festa sem carne não é sequer imaginável.

Helena receberia o corpo de Cristo a contragosto. Recusaria o corpo de Bartolomeu. Seria vegetariana.

Mariléia Sell, Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo, Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

 

Autora

Mariléia Sell

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