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Os muros da vergonha, que dividem as pessoas e os países – Artigo de Jackson Buonocore

16 de novembro, 2019 às 23:08 - por Jackson Buonocore

No dia 9 de novembro de 1989 marcou a queda do vergonhoso muro de Berlim, sendo um dos fatos  ais importantes do século 20, que nos leva a refletir que o desejo de liberdade e democracia é capaz de derrubar as muralhas que separam os países. E, sobretudo, desconstrói os muros ideológicos que são erguidos no coração e na mente das pessoas. Após vencer a segunda Guerra Mundial, Estados Unidos, França, Reino Unido e União Soviética acordaram em dividir a Alemanha. Assim no oeste, surgiu a República Federal da Alemanha, enquanto no leste, foi criada a República Democrática Alemã.

A implantação do regime soviético levou 3,5 milhões de pessoas a fugir do leste para o oeste, em busca de uma nova vida. Mas Berlim era o enclave, que se tornou um problema para os soviéticos, e para tanto, eles construíram um muro para dividir a cidade, que foi erguido em 13 de agosto de 1961.

Essa divisória foi projetada para impedir a passagem dos habitantes entre as duas regiões,  que por uma imposição
ideológica: ergueu-se um paredão que se estendeu por 155 km ao redor de Berlim Ocidental, com 302 torres  de observação, 127 redes metálicas eletrificadas e 3,5 metros de altura que foi reforçado com cabos de aço.

A construção dessa muralha resultou na morte de 136 pessoas de 1961 a 1989. E outras 200 ficaram feridas e 300 foram presas, contudo, 5.000 atravessaram de Berlim Oriental para Berlim Ocidental ao longo dos 28 anos em que o muro separou a cidade.

Aliás, o muro causou uma separação traumática, gerando sofrimento físico, psíquico e emocional entre milhares de
famílias e amigos, que passaram quase três décadas sem se ver. Mas há 30 anos a população, após tanta
humilhação, decidiu derrubar o muro, que oficialmente foi demolido em 13 de junho de 1990, dando o início a
reunificação da Alemanha.

Porém, a importância histórica da queda do muro de Berlim não foi suficiente para impedir, que em diversos países e
na Europa fossem erguidos os “muros contemporâneos” de expansão dos discursos xenófobos, homofóbicos,
misóginos, racistas e de incitamentos ao ódio.

Os recentes dados da ONU mostram que mais de 2.000 imigrantes e refugiados morreram ao atravessar o
Mediterrâneo para chegar à Europa. E quase 105.000 solicitantes de asilo e imigrantes chegaram ao continente
europeu, todavia são vítimas de xenofobia. Também há outros muros da vergonha: entre Marrocos e a Espanha, o
que separa a fronteira EUA-México, o que divide a Coreia do Sul e Coreia do Norte, e o da Cisjordânia que isola
Israel do território palestino.

No Brasil se erguem os paredões dos discursos de intolerância contra os negros, indígenas, imigrantes, mulheres, LGBTI, moradores de favelas, entre outros. Segundo o IBGE, o que mais cresce é o muro da desigualdade,  que permitiu que a extrema pobreza chegasse a 13,5 milhões de brasileiros sobrevivendo com até 145 reais mensais.
Nesse cenário o desemprego atingiu 12,5 milhões de pessoas, e o percentual de ambulantes nas ruas pulou mais de 500% entre 2015 e 2018. Os negros são os mais atingidos, onde taxa de desocupação chega a 14,1%, e quase um em cada dez é analfabeto e a metade não tem trabalho formal ou acesso a esgoto.

Hoje, os muros sãos os mecanismos de controle social, econômico e político da população, que são os símbolos do medo. Para o sociólogo Zygmunt Bauman, isso é um sofisticado sistema de segurança contra o perigo do estranho e do diferente. No entanto, a solução para os conflitos entre as pessoas e os países é a construção de mais “pontes” de diálogo e solidariedade.

Jackson Buonocore é Sociólogo e Psicanalista

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