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Quarentena – Crônica de Mariléia Sell

20 de abril, 2020 às 10:49 - por Mariléia Sell

O anúncio no rádio acabara tirando o seu momento de glória e ninguém agora dava conta das astúcias do velho. Ervaldo contorcia o corpo emocionado e, se estivessem olhando, saberiam tratar-se de uma jogada devastadora, carta magnífica, um reis de espadas talvez. O estrondo na mesa, o Ás monumental atirado sobre os adversários e nada, ninguém para testemunhar suas raríssimas habilidades com o baralho. As palavras chiadas do rádio pré-histórico sobre o balcão haviam paralisado todo mundo num suspiro ansioso. Era verdade, então. O vírus estava mesmo se espalhando por todos os cantos do planeta e matando pessoas como se fossem moscas. Principalmente velhos, e essa era a informação que mais lhes dizia respeito. Hoje em dia não havia mais fronteiras para nada; tudo que era peste, fosse de origem brasileira ou chinesa, pouco importava, era de ordem coletiva. O anúncio oficial do governador era claro como água: todos deveriam ficar em casa. Estava decretada a quarentena.

A venda onde se reuniam diariamente para jogar canastra e beber coca-cola poderia manter as portas abertas. O governador havia pensado em tudo, ninguém morreria de fome. Se precisassem de algum remédio, e isso está sempre na ordem do dia de qualquer velho, farmácias também continuariam atendendo. Assimiladas as notícias, respiraram aliviados, ainda não seria o fim do mundo, não agora. E se a venda continuasse aberta, poderiam continuar jogando também, pensaram todos em tamanha velocidade e sincronicidade  que verbalizaram juntos. Mas o governador era homem dado à ciência e foi logo acrescentando que estavam proibidas todas as aglomerações porque, ao que se dizia, o vírus tinha um comportamento muito promíscuo. Todo e qualquer contato social estava terminantemente proibido. Josiano deu  uma golada em seco e bateu o copo na mesa, como se tivesse entornado a mais pura cachaça. Agora, sim, o mundo acabaria. Teriam que ficar em casa? Era isso? Sim, era isso mesmo; o governador estava justamente repetindo essa parte e pedindo, com ares de benevolência paternal, que todos fizessem a sua parte e que ficassem em casa.

Impactados demais, nem ouviram o restante do comunicado do governador. O dono da venda também ficara absorvido em pensamentos de ordem pragmática: com certeza venderia menos a partir de agora. “Isso é um exagero descabido”, sentenciou Geraldo, mascando o seu cigarro de fumo de rolo. “Onde já se viu, ficar trancafiado em casa porque tem gente morrendo do outro lado do mundo”? Loreno concordava e dizia mais: “o vírus jamais chegará neste fim de mundo, não achará o caminho”. Josiano preferia não emitir opinião: apertava ferozmente a sua bombinha entre os dentes novíssimos, porém não se descuidava, dosava vigor e cautela em medidas equivalentes para que não lhe escapasse a dentadura da boca, ainda não se acostumara com a pujança de sua mordida atual. Notícias alarmantes lhe atiçavam a  asma. Os sintomas do vírus o aterrorizavam, terríveis, segundo se dizia por todo canto e no noticiário do rádio. Asfixia lenta, tosse, nariz escorrendo, como se já não bastasse a fatalidade da velhice.

Uma coisa era certa: o carteado estava acabado por hoje. Por hoje e por tempo indeterminado, como gostavam de falar os repórteres de tudo que era canal de televisão. Se havia uma palavra que trazia incômodo a Ervaldo era essa: indeterminado. Na idade dele, algo com prazo indeterminado para acontecer tinha grandes chances de não dar tempo de acontecer. E numa sincronia lenta, todos se levantam; em gestos calculados, todos jogam dinheiro sobre a mesa para pagar as coca-colas, todos pegam seus chapéus, Loreno pega, também, sua bengala, e todos vão embora. Ao andar arrastado pelo peso dos anos grudados nos ossos, soma-se, agora, a  penitência do isolamento.

Nos calendários, os dias se amontoavam com má vontade uns sobre os outros. Ervaldo acompanha a movimentação das plantas pela janela da cozinha; são oito quadrados de vidro, a janela. O vidro do último quadrado, à esquerda, tem um trincado que parece um galho espinhento de roseira. Um João de Barro está fixando residência sobre o galho da pereira do pátio. Alheio à quarentena, o pássaro está há dez dias num incansável vai e vem. Ervaldo contabilizava os dias de isolamento com os dias da obra na pereira. Dez dias. Mais três dias e a casa estaria terminada, avaliava o velho, com ar de desolação, apiedado de si mesmo. Tinha prazo para acabar. Para a quarentena, nada de previsão. Tudo era indeterminado.

Na décima primeira noite, Ervaldo teve um sonho. Um sonho, não, uma revelação. Estava sentado com seus companheiros de carteado na casa do João de Barro, todos contavam novidades e riam bastante; ele até repetira a sua jogada de mestre, aquela que ficara ofuscada pela notícia no rádio. Os dentes novos de Josiano estavam ainda maiores e mais brancos. Não havia rádio na casa do João de Barro, para garantir. Lá era absolutamente seguro. Instantaneamente, entendera a revelação, além de excelente jogador de canastra, tinha habilidade desconcertante para decifrar sinais, fossem do além, ou fossem dos companheiros de mesa tentando roubar nas cartas, ninguém lhe passava a perna. Bastava encontrar um lugar seguro e poderiam se encontrar para jogar e beber coca-cola. Mas como avisar aos outros da engenhosa descoberta se, assim como todos eles, estava isolado e incomunicável? Pensou e pensou e, usando de uma astúcia cultivada em dias e dias de exílio, chegou ao plano perfeito, quase tão formidável quanto a própria epifania do sonho. Mandaria uma mensagem pelo leiteiro, leiteiros podiam circular livremente; se houvesse classificação dos profissionais essenciais  à manutenção da ordem em terras tão longínquas, o leiteiro seria o primeiro da lista, indispensável. Um bilhete, sim um bilhete sucinto marcando o encontro no velho celeiro de milho da cooperativa. Lugar abandonado, absolutamente insuspeito. Marcaria para o dia seguinte, no mesmo horário dos encontros na venda. Era importante cada um ter um tempo mínimo para organizar a fuga. Pensara em tudo.

O bilhete foi recebido com muita animação. Todos se puseram a escovar os chapéus, lustrar os sapatos, separar as roupas de passear e aparar os bigodes. Tudo de forma contida para não chamar atenções indesejadas. O apuro estético, nesse período de reclusão, havia deixado de ser uma preocupação. Exatamente no horário marcado, o quarteto estava na frente do velho prédio. Porém, o que ninguém podia calcular era que a lei também fosse alcançar aquele território de ninguém. Uma enorme corrente impedia a entrada e um cartaz ameaçador lembrava da proibição de aglomerações. Vinha carimbado e assinado por autoridades sanitárias. Confirmava-se ali  uma antiga especulação empírica: não é de graça que os leiteiros têm fama de fofoqueiros.

Mariléia Sell é Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo e Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

 

Autora

Mariléia Sell

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