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A roda dos ratos – Crônica de Mariléia Sell

27 de abril, 2019 às 15:12 - por Mariléia Sell

Em épocas de discussão da reforma da previdência, já considerada constitucional e já aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e com votações futuras já negociadas nos balcões do Estado, é impossível não refletir sobre a nossa relação pessoal com o trabalho. É evidente que o trabalho é o triunfo do homem e da mulher sobre o mundo. É inegável também que poucas coisas trazem mais realização a uma pessoa do que ter um trabalho, produzir algo e ser útil para a sociedade. É a tão propalada dignidade de que ouvimos falar desde que temos ouvidos para ouvir, assim como ouvimos também, com esses mesmos ouvidos, que a preguiça é um pecado capital. Contudo, uma metáfora utilizada pelo sociólogo francês Michel Mafessoli me parece bem adequada para refletir sobre a dimensão do trabalho em nossas vidas, em tempos de retirada de direitos e de precarização das condições laborais. Se imaginarmos a nossa vida como uma viagem e se nessa viagem pudermos carregar somente uma mala, ou poucas malas, que seja, precisamos, por óbvio, racionalizar o espaço, escolher com cuidado todos os itens necessários para atender às nossas necessidades (e aqui falo das necessidades materiais, emocionais, intelectuais e espirituais). Ora, se a mala estiver cada vez mais cheia com o trabalho, por um imperativo da física, é preciso largar, ao longo do caminho, algumas coisas. Largamos, então, o que consideramos prescindível: o lazer, as horas de ócio, as horas dedicadas à leitura e à meditação, o tempo com os amigos e com a família, elementos sabidamente fundamentais a todo processo criativo.

Outra metáfora de que lembro sempre e cada vez mais é a da corrida dos ratos, usada por Robert Kivosaki, em seu livro Pai Rico, Pai Pobre. A imagem da corrida inútil do rato de laboratório em uma roda ou em um labirinto aproxima-se à corrida esquizofrênica que fazemos todos os dias para fazer a roda da nossa vida girar. É um esforço diário monumental para mantermos essa roda em movimento, partindo, de antemão, do pressuposto de que o sucesso está na corrida, nas conquistas materiais e nos títulos que angariamos, ou seja, na premissa de que a roda precisa andar, não pode parar nunca. Nada de ócio. Para ‘vencermos na vida’, aprendemos, então, desde o jardim de infância, que precisamos nos ocupar, que precisamos receber notas altas e competir com o colega, estabelecendo uma relação utilitarista com o conhecimento. O conhecimento é sujeitado ao mercado, ou seja, precisa formar trabalhadores úteis. Nesse sentido, o presidente eleito do Brasil anunciou pelo twitter que pretende deixar de financiar com dinheiro público os cursos de filosofia e de sociologia, pois o que interessa é ler, escrever, fazer cálculos e produzir coisas ‘úteis’, remetendo claramente à função inicial da escola: a de formar trabalhadores ordeiros e dóceis. O pensamento mais abstrato está, assim, diretamente associado à inutilidade. É preciso seguir a lógica da esteira do fordismo, bater prego, passar cola, parafusar.

Nessa mesma lógica perversa do mercado, as pessoas valem enquanto produzem. Espera-se, ainda, que custem pouco, que não exijam salários altos e que não reclamem condições de trabalho dignas, que não engravidem, que aceitem levar trabalho para casa, que concordem com horas extras, que trabalhem até o final da vida. Afinal de contas, o que são vidas humanas comparadas aos grandes serviços prestados por empresas como a Vale, por exemplo, como disse o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, por ocasião do rompimento da barragem em Brumadinho. Como a medida do nosso ‘sucesso’ está ligada ao trabalho e ao dinheiro que conseguimos, esforçamo-nos cada vez mais para nos mantermos na roda dos ratos. O tempo que vendemos em troca de dinheiro nos possibilita comprar o carro do ano, pagar escolas de grife para os filhos, viajar para a Disney, ter vários cartões de crédito. E assim, para manter a roda, já não há mais como sair da engrenagem, mesmo que quiséssemos. Ela entraria em colapso e traria a nossa ruína pessoal.

Sem tempo para o lazer e sem perspectivas para outras formas de existir no mundo senão nessa relação coisificada, senão nessa lógica de gastar a vida para pagar as contas, vemos um aumento significativo da depressão, do uso de drogas e do suicídio. A alienação da vida e da alma custam muito caro, afinal. A corrida toda nos cansou muito e, ao fim e ao cabo, não nos levou a lugar nenhum, não nos trouxe nada que não pereça na lógica da descartabilidade das mercadorias. A corrida nos trouxe o horror do vazio. O horror de perceber o que deixamos pelo caminho.

Mariléia Sell é Doutora em Linguística Aplicada, Mestra em Linguística Aplicada, Licenciada em Letras Português/Inglês, Graduada em Comunicação Social-Jornalismo e Docente dos cursos de Letras e de Comunicação/UNISINOS

 

Autora

Mariléia Sell

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