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UM INSULTO CRIATIVO – Artigo de Helio Teixeira

23 de agosto, 2020 às 13:59 - por Helio Teixeira

O sofrimento é necessário e fundamental para a vida humana. E isso é algo que a própria biologia confirma. Nós temos sistemas de defesas que nos ensinam a sobreviver, e, por vezes, essas defesas nos causam dor. Muita dor. Veja, se uma pessoa bater qualquer parte de seu corpo contra qualquer obstáculo sólido, isso pode lhe causar dor. Se alguém pular de certa altura, é possível que suas pernas e pés doam ou mesmo sofram lesões.

Do mesmo jeito, se alguém sofrer qualquer corte em seu corpo, isso também causará dor e, dependendo a situação, um prejuízo bem maior. A dor, nestes exemplos, é sinal de proteção para as pessoas, a dor permite a elas ter percepção de que seu corpo interage com o espaço e que os limites do espaço e do tempo são perceptíveis sensorialmente. A dor protege a vida de riscos.

A dor é um dos nossos muitos sentidos. Não temos apenas cinco sentidos como se pensa, temos mais de dez. Outro exemplo interessante é quando uma pessoa sente frio, ela pode começa a tremer; quando o organismo humano está infeccionado, aparece a febre; quando o corpo precisa concentrar energia para resolver um problema localizado, o desmaio é a chave para se desligar e concentrar energia naquele problema; quando alguém toma um susto, seu corpo produz adrenalina em níveis altos para despertá-lo rapidamente, entre outras situações.

Esses exemplos demonstram que o sofrimento físico e psicológico funciona como proteção à vida humana, ao corpo, à sobrevivência da espécie. No mesmo sentido, o corpo biológico também se constitui num corpo social moldado pela sociedade por meio da linguagem. A linguagem é antes do indivíduo, ela o molda e o perpassa. A pessoa fala uma língua tomada de seus pais, de seu país e de sua cultura. Em cada uma das palavras existem conceitos e ideias atreladas que vão forjando a percepção dos indivíduos. Junto às palavras e às frases os mortos nos rodeiam como testemunhas atávicas de valores construídos através de uma longa história dos significados. Desde o primeiro sopro atmosférico, as pessoas passam a receber aulas vivas da língua materna, que as transformarão em gramáticas ambulantes.

Nesse sentido, tudo o que acontece às pessoas, os chamados fatos, em si eles são sempre resultados prévios de interpretações. A única coisa que pode acontecer diretamente ao ser humano é a morte repentina e violenta, cujo colapso não permita ao ser humano ter a mínima percepção do que ocorre em frações de segundos. Por isso, é possível dizer que o sofrimento só existirá enquanto fato interpretado, porém, o sofrimento é já a dor interpretada como um fato, e será sempre interpretada como algo, ainda que desconhecido.

A estrutura psíquica humana tem seus dispositivos de dor para estruturar padrões de sanidade aos indivíduos. Por exemplo, quem tem um ataque de pânico, pode ter uma sensação de que está sofrendo um infarto, uma sensação de colapso. Tal sensação é de dor física e simbólica; física por que se trata de é uma dor sentida de forma real; simbólica por que o indivíduo se imagina despedindo-se do mundo dos vivos. O pânico é uma forma de medo irracional. E por que irracional? Essa dor desmedida surge, arrebenta, irrompe e apavora sem razão aparente, o medo a caracteriza. Existe uma razão, mas ela é ainda desconhecida para a pessoa.

O pânico é um dispositivo biológico que alerta o indivíduo a respeito de algo fora da ordem. É como febre indicando infecção. Assim também é a depressão. É o esmagamento da autoestima que aponta para a desarmonia. Mas, o que está fora de harmonia? Só o indivíduo que está em de-pressão ou em pânico poderá saber; é preciso conectar-se com suas estruturas profundas. É preciso meditar a respeito!

Percebendo que a história do ser humano é a própria história do domínio dos desejos não civilizados de sua estrutura profunda, Freud se deu conta de que “O primeiro humano que insultou o seu inimigo, em vez de atirar-lhe uma pedra, inaugurou a civilização”. Parece que essa é a busca do ser humano, mas isso implica, em muito, aprender a lançar insultos a nós mesmos em vez daquele tipo de violência social depreciativa que atinge nossa o valor que damos a nós mesmos, a nossa autoestima, aquele tipo de insulto que nos levanta em vez de nos jogar ao chão, que nos estimula em vez de-pressão causar. Quando aqui se fala em insultos, o que se deseja dizer é aquela forma criativa de insulto, um insulto criativo. Algo como: “Deixe de autopiedade!”, “deixe de ficar de mi-mi-mi!”, “deixe de choramingar!”, “deixe de autocomiseração!”, “Levanta a cabeça e Sê tu mais!“.

Muito do sofrimento pelo qual as pessoas passam é devido à “pedra” que elas lançam a si mesmas ou àquelas lançadas sobre elas por outras pessoas. É preciso um insulto de vez em quando, em vez de uma pedra. O sofrimento precisa ser interpretado, e ele é necessário para a vida feliz. E ser feliz, como a história das palavras nos revela, significa ser fértil, produtivo, fecundo. O sofrimento, portanto, é um bom estímulo à vida feliz. Dessa forma, o sofrimento é a interpretação que fazemos da dor.

Qual é a sua dor? Qual tem sido a sua interpretação?

Helio Teixeira é Professor  e Teólogo

 

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